quinta, 02 de julho de 2026
Política
02/07/2026 | 07:00

COLUNA DO PRISCO PARAÍSO: Pelo visto João escolheu a hora errada para concorrer ao governo

As declarações absurdas, polêmicas e vergonhosas de Lula da Silva contra o povo catarinense na última sexta-feira, em Itajaí, não foram um deslize. Não foram improviso. Ao que tudo indica, foram de caso pensado. Não necessariamente nas abordagens específicas — ninguém roteiriza tamanha grosseria —, mas na estratégia por trás delas.
 
Nos bastidores circula com força a avaliação de que Gelson Merísio teria trocado ideias com o inquilino do Palácio do Planalto sobre o tom da manifestação. E quem conhece Merísio sabe que não é homem de deixar as coisas ao acaso. Ele tem um histórico consistente de formulador político. Habilidade rara nos encaminhamentos, e que vai muito além do campo partidário eleitoral. Alcança o Judiciário, onde seu trânsito em Brasília não deixa nada a desejar a muitos parlamentares do Congresso — falo dos dois principais tribunais federais, STF e STJ. Alcança também o meio empresarial, onde atua como colaborador próximo dos acionistas de um dos maiores grupos do país, com penetração internacional: a JBS. Um homem com esse perfil não sugere nada por impulso.
 
Lógica ofensiva
 
Então o que teria levado Merísio a sugerir ao presidente uma ofensiva contra Jorginho Melo e contra a própria sociedade catarinense, às vésperas do início da campanha eleitoral — que será deflagrada tão logo as convenções homologatórias sejam realizadas, entre 20 de julho e 5 de agosto? A resposta está nas pesquisas.
 
João na frente
 
João Rodrigues vem monopolizando não apenas o espaço na mídia, mas as próprias pesquisas de opinião, com o dobro da intenção de voto de Gelson Merísio. É verdade que Merísio surgiu como candidato há poucos meses, enquanto João Rodrigues está na estrada há quase três anos. Ambos são da mesma região, de Chapecó. Mas os números falam por si.
 
Polarização calculada
 
A partir do momento em que Lula polemiza com suas declarações, ele força a polarização a chegar também em Santa Catarina — espelhando o que já está estabelecido no plano nacional, pela via da verticalização: bolsonarismo contra lulismo. E com isso, o espaço para João Rodrigues encolhe. O centro some. Fica só a direita de Jorginho Melo e a esquerda de Gelson Merísio. Simples assim.
 
Objetivo de Merísio
 
Pode ter sido exatamente esse o raciocínio de Merísio. O objetivo não é ganhar — nem ele, nem Lula, nem o PT nutrem essa ilusão em Santa Catarina. O objetivo é ficar na segunda posição. Consolidar uma fatia eleitoral robusta o suficiente para oferecer palanque a Lula no estado. Porque Lula vai puxar Merísio, mas Merísio, mais fortalecido, devolve o favor — elevando a votação do presidente no seu projeto de reeleição aqui em Santa Catarina.
 
Lula derrotas em SC
 
E Lula tem uma conta aberta com Santa Catarina. A última vez que ganhou uma eleição aqui foi em 2002 — há 24 anos —, quando se elegeu presidente na quarta tentativa e fez no estado, no primeiro turno, a maior votação proporcional do país. No segundo turno, a segunda maior, perdendo apenas para o Acre. Depois disso, derrota atrás de derrota.
 
Esquerda nunca governou SC
 
Com um detalhe que não pode ser ignorado: nem o PT nem a esquerda jamais conseguiram eleger um governador em Santa Catarina. O estado esteve sempre vacinado. A única vez que a esquerda chegou ao segundo turno foi em 2022 — não por mérito próprio, mas porque cinco candidatos conservadores dividiram os votos e a pulverização abriu a porta para Décio Lima carimbar o passaporte para o segundo turno.
 
A qualquer custo
 
No fundo, é isso. A estratégia toda — os insultos, a polarização forçada, o sacrifício de João Rodrigues — tem um único objetivo final: construir um palanque minimamente digno para Lula em Santa Catarina em 2026. Merísio sabe que não ganha. Lula sabe que não ganha. Mas juntos, calculam que podem fazer um resultado menos vexatório e mais útil ao projeto nacional do PT.
 
SC não se rende
 
Santa Catarina, porém, tem memória. Tem caráter. E tem um eleitorado que não se deixa manipular por estratégias armadas aqui ou em Brasília. Vamos observar o desenrolar dos acontecimentos — e apostar que, mais uma vez, as urnas vão responder com clareza.

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