Para enfrentar o déficit histórico no aprendizado e no hábito de leitura no ensino público brasileiro, pesquisadores da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) colocaram em prática uma metodologia de mediação literária que substitui questionários e avaliações mecânicas por abordagens sensoriais e debates abertos. A aplicação ocorre em uma turma de 25 estudantes do nono ano da Escola ECIM Maria Linhares de Souza, em Itapema, articulando a reflexão crítica e a percepção estética em sala de aula.
“A leitura exige um leitor produtivo e investigativo, capaz de reconhecer o texto literário em toda a sua dimensão artística”, afirma a pesquisadora Cleuci Ozório, autora da metodologia desenvolvida em sua pesquisa de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Univali, sob orientação da professora Adair de Aguiar Neitzel.
Responsável pela condução da atividade, Cleuci é acompanhada pela pesquisadora Gesiele dos Reis — também egressa da instituição. O trabalho analisa a interação dos alunos com a obra Entre linhas, de Angela Leite de Souza, promovendo a interpretação direta e a autonomia leitora sem roteiros engessados.
A dinâmica adota o protocolo ‘Percursos-sentidos’, no qual os estudantes associam passagens do livro a estímulos de visão, audição, olfato, tato e paladar. A experiência apoia-se na observação contínua do comportamento dos adolescentes, resultando em produções autorais e no fortalecimento do vínculo da turma com a literatura.
“Iniciativas como essa fortalecem o processo de aprendizagem e aproximam os jovens dos livros de forma duradoura”, avalia a pesquisadora.
Rede de pesquisa e impacto nacional
A ação em Itapema integra um estudo científico sobre mediação de leitura de obras do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) Literário, financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A pesquisa é executada em rede por seis estados (Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Minas Gerais e Paraíba), sob articulação da Universidade de Caxias do Sul (UCS) e apoio da Rede Internacional de Pesquisas em Educação Estética (Ripe).
Na Univali, a iniciativa adota a metodologia da Sociopoética Literária e está vinculada ao Grupo de Pesquisa Cultura, Escola e Educação Criadora, liderado pela professora Adair.
“Investigamos como a arte e a literatura contribuem para a formação sensível e intelectual de alunos e professores”, destaca Adair.
Desafio do aprendizado e o PNLD
A pesquisa busca oferecer soluções concretas para os indicadores nacionais e internacionais de educação. Dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) de 2023 posicionaram o Brasil na 52ª colocação no ranking mundial de leitura, reforçando a necessidade de práticas pedagógicas que aprofundem o letramento na escola pública.
Nesse cenário, a testagem do método com livros do PNLD — a maior política de distribuição de obras do país — fornece subsídios para o aprimoramento dos critérios de avaliação de acervos e para a formação continuada de docentes na rede pública.
Do primeiro encontro ao impacto científico
“Acompanhar como os estudantes reagem e interagem com a obra em sala de aula é fundamental para compreender a potência do método na prática”, registra a pesquisadora Cleuci.
A ação em Itapema teve início neste mês de setembro e segue até agosto de 2027. Nos próximos meses, a equipe acompanha a leitura da obra, registra as percepções sensoriais da turma e organiza o material autoral produzido pelos alunos. As descobertas feitas em sala de aula serão transformadas em artigos científicos e apresentadas oficialmente no Seminário de Pesquisa da Univali no segundo semestre do próximo ano.