segunda, 14 de junho de 2021
Geral
07/11/2017 | 10:44

Valorização da vida

O aumento no número de vítimas de suicídio a cada ano vem preocupando as autoridades e instituições, afinal, trata-se também de um problema de saúde pública, mas que por muitos ainda é tratado como tabu. Segundo dados oficiais, são 32 brasileiros que se suicidam por dia, taxa superior às vítimas da AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Tem sido um mal silencioso, pois as pessoas fogem do assunto, por medo ou desconhecimento. No entanto, segundo a Organização Mundial da Saúde, nove em cada 10 casos poderiam ser prevenidos. Mas, para isso, é preciso que tanto a pessoa que esteja com ideias suicidas, quanto os que a rodeiam, saibam que é possível buscar ajuda.
Segundo informações da instituição Centro de Valorização da Vida (CVV), quem tenta suicídio está pedindo socorro. A maioria apresenta algum transtorno mental, com sintomas leves, moderados ou severos. Os principais são depressão, dependência química e até a esquizofrenia. E seja qual for o transtorno e a sua gravidade, sempre haverá um momento crítico, e este, pelo menos na maioria das vezes, pode ser superado, desde que a pessoa em questão receba a ajuda certa. 
O CVV, por exemplo, dá apoio emocional e preventivo. Seus 2,2 mil voluntários em todo o Brasil que atendem gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone (188), pessoalmente nos 73 postos de atendimento distribuídos pelo país, pelo site www.cvv.org.br, via chat, VoIP (Skype) ou e-mail, 24 horas todos os dias.
 
Não existem suicidas potenciais
Não existe aquela história de “quem diz não se mata”, ou “suicídio é coisa de mulher”. A constatação dos voluntários da CVV, que têm longa experiência nos atendimentos, é de que aquele que diz que vai se suicidar realmente faz isso e que tanto homens como mulheres são capazes deste ato, independentemente da idade. No entanto, estudos apontam que os maiores índices são registrados entre adolescente e idosos.
Não há predominância de faixa etário ou gênero. “Hoje somos procurados por pessoas de todas as idades. São adolescentes de 12 a 13 anos que sofrem solidão, dificuldades de entrosamento no meio ao qual estão inseridos ou depressão, entre outras causas; idosos que sentem-se solitários, cansados de viver”, conta a voluntária Roberta Reis, que é responsável pela divulgação das ações do Núcleo de Apoio à Vida de Itajaí (NAVI).  
O NAVI está instalado na Rua Alfredo Trompovski, 61, na Vila Operária, e opera com 30 voluntários que dedicam à instituição uma carga horária semanal de quatro horas e meia e realizam cerca de 360 atendimentos por semana. Os turnos podem ser realizados a qualquer hora do dia ou de algumas noites por semana, pois nas terças e quartas-feiras o horário do posto de Itajaí é ininterrupto. 
“Mas quem ligar para o número 188 fora dos horários de atendimento da unidade local, em hipótese alguma deixará de ser atendido e acolhido, pois o sistema transfere automaticamente a ligação para uma unidade que esteja em operação”, acrescenta Roberta. A voluntária informa ainda que que quiser optar pelo atendimento pessoal, pode procurar o NAVI em qualquer dia da semana, das 11h às 15h. “Os atendimentos são sigilosos e temos um compromisso com o anonimato”, complementa.
“Aprendi que muitas vezes uma simples conversa pode mudar o dia de alguém. É incrível como existem pessoas que não tem com quem conversar, que precisam desabafar. E o CVV presta muito bem esse papel. As pessoas que têm depressão ou estão angustiadas e solitárias ligam para a instituição encontram no CVV uma oportunidade de desabafar”, relata a voluntária.
 
Mapa dos suicídios no Brasil 
coloca Santa Catarina em alerta
O primeiro Boletim Epidemiológico de Tentativas e Óbitos por Suicídio no Brasil, divulgado na última quinta-feira (21) pelo Ministério da Saúde, coloca a região Sul em destaque. Os três estados juntos respondem por uma taxa de 23% dos casos. Considerando que os Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná detêm somente 14% da população nacional, o número é preocupante. No Sudeste, por exemplo, são registrados 38% dos suicídios, mas a região representa 42% da população. Assim, o risco é menor no Sudeste do que Sul, onde há um aglomerado importante.
Entre 2011 e 2015, as maiores taxas de óbito por suicídio foram registradas nos estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Mato Grosso do Sul, que apresentaram, respectivamente, 10,3, 8,8 e 8,5 óbitos por 100 mil habitantes. Outro dado alarmante é que, de acordo com as estatísticas da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive-SC), em 2016, 2,99 mil catarinenses tentaram o suicídio e 603 foram a óbito. Em 2015, foram registradas 2,91 mil tentativas de suicídio e 598 óbitos. “Precisamos conhecer essa triste realidade para podermos desenvolver ações e atitudes para prevenção do suicídio, que é um grave problema de saúde pública no estado e em todo o país”, explica o diretor da Dive-SC, Eduardo Macário. 
Um dos alertas do boletim é a alta taxa de suicídio entre idosos com mais de 70 anos. Nessa faixa etária, foram registradas média de 8,9 mortes por 100 mil nos últimos seis anos no estado. A média nacional é 5,5 por 100 mil. Também chamam atenção o alto índice entre jovens, principalmente homens, e indígenas. O diagnóstico inédito vai orientar a expansão e qualificação da assistência em saúde mental no país.
Segundo os números do Ministério da Saúde, entre os fatores de risco para o suicídio estão transtornos mentais, como depressão, alcoolismo, esquizofrenia; questões sociodemográficas, como isolamento social; psicológicos, como perdas recentes; e condições clínicas incapacitantes, como lesões desfigurantes, dor crônica, neoplasias malignas. No entanto, tais aspectos não podem ser considerados de forma isolada. 
 
Assistência para 
preservar a vida
Uma das metas do Ministério da Saúde é reduzir a mortalidade por suicídio em 10% até 2020. O índice foi acordado no Plano de Ação em Saúde Mental, lançado em 2013, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), o qual o Brasil é signatário. Isso representa expandir a atuação dos Centros de Apoio Psicossocial (CAPS). De acordo com o boletim, locais que contam com esse serviço têm queda de até 14% no risco de suicídio. 
Também está no horizonte do órgão ampliar o atendimento em parceria com o Centro de Valorização da Vida (CVV). Tornar gratuita a ligação para esta instituição já foi uma das medidas tomadas em oito Estados, incluindo Santa Catarina, a partir do último dia 30. 
Além disso, os serviços públicos de saúde mental de Santa Catarina contam com 99 Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) em diversos municípios e diferentes modalidades, e mais 23 estão em fase de implantação.•

JORNAL IMPRESSO
11/06/2021
04/06/2021
28/05/2021
21/05/2021

PUBLICIDADE
+ VISUALIZADAS